26 de setembro de 2015

Cobra Norato

I
Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

Vou andando caminhando caminhando
Me misturo no ventre do mato mordendo raízes

Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato

– Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar

A noite chega mansinho
Estrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra.

Agora sim
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo

Vou visitar a rainha Luzia
Quero me casar com sua filha
– Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos

II
Começa agora a floresta cifrada

A sombra escondeu as árvores
Sapos beiçudos espiam no escuro

Aqui um pedaço de mato está de castigo
Arvorezinhas acocoram-se no charco
Um fio de água atrasada lambe a lama

– Eu quero é ver a filha da rainha Luzia!

Agora são os rios afogados
bebendo o caminho
A água resvala pelos atoleiros
afundando afundando
Lá adiante
a areia guardou os rastos da filha da rainha Luzia.

– Agora sim
vou ver a filha da rainha Luzia

Mas antes tem que passar por sete portas
Ver sete mulheres brancas de ventres despovoados
guardadas por um jacaré

– Eu só quero a filha da rainha Luzia

Tem que entregar a sombra para o Bicho do Fundo
Tem que fazer mironga na lua nova
Tem que beber três gotas de sangue

– Ah só se for da filha da rainha Luzia!

A selva imensa está com insônia

Bocejam árvores sonolentas
Ai que a noite secou   A água do rio se quebrou
Tenho que ir-me embora

Me sumo sem rumo no fundo do mato
onde as velhas árvores grávidas cochilam

De todos os lados me chamam
– Onde vais Cobra Norato?
Tenho aqui três arvorezinhas jovens à tua espera

– Não posso
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia

III
Sigo depressa machucando a areia
Erva-picão me arranhou
Caules gordos brincam de afundar na lama

Deixa eu passar que vou pra longe

Moitas de tiririca entopem o caminho

– Ai Pai-do-mato!
quem me quebrou com mau olhado
e virou meu rasto no chão?

Ando já com os olhos murchos
de tanto procurar a filha da rainha Luzia

O resto da noite me enrola

A terra agora perde o fundo
Um charco de umbigo mole me engole

Onde irei eu
que já estou com o sangue doendo
das mirongas da filha da rainha Luzia?

IV
Esta é a floresta de hálito podre
parindo cobras

Rios magros obrigados a trabalhar
A correnteza se arrepia
descascando as margens gosmentas

Raízes desdentadas mastigam lodo

Num estirão alagado
o charco engole a água do igarapé

Fede
O vento mudou de lugar

Um assobio assusta as árvores
Silêncio se machucou

Cai lá adiante um pedaço de pau seco:
pum

Um berro atravessa a floresta
Chegam outras vozes

O rio se engasgou num barranco

Espia-me um sapo sapo
Aqui tem cheiro de gente
– Quem é você?

– Sou a Cobra Norato
Vou me amasiar com a filha da rainha Luzia

V
Aqui é a escola das árvores
Estão estudando geometria

– Vocês são cegas de nascença  Têm que obedecer ao rio

– Ai ai! Nós somos escravas do rio

– Vocês estão condenadas a trabalhar sempre sempre
Têm a obrigação de fazer folhas para cobrir a floresta
– Ai ai! Nós somos escravas do rio

– Vocês têm que afogar o homem na sombra
A floresta é inimiga do homem
– Ai ai! Nós somos escravas do rio

Atravesso paredes espessas
Ouço gritos miúdos de ai-me-acuda:
Estão castigando os pássaros

– Se não sabem a lição vocês têm que ser árvores
– Ai ai ai ai…

– O que é que você vai fazer lá em cima?

– Tenho que anunciar a lua
quando ela se levantar atrás do mato

– E você?
– Tenho que acordar as estrelas
em noites de São João

– E você?
– Tenho que marcar as horas no fundo da selva

Tiúg… Tiúg… Tiúg…
Twi. Twi-twi.

VI
Passo nas beiras de um encharcadiço
Um plasma visguento se descostura
e alaga as margens debruadas de lama

Vou furando paredões moles
Caio num fundo de floresta
inchada alarmada mal-assombrada

Ouvem-se apitos um bate-que-bate
Estão soldando serrando serrando
Parece que fabricam terra...
Ué! Estão mesmo fabricando terra

Chiam longos tanques de lodo-pacoema
Os velhos andaimes podres se derretem
Lameiros se emendam
Mato amontoado derrama-se no chão

Correm vozes em desordem
Berram: Não pode!
– Será comigo?

Passo por baixo de arcadas folhudas
Arbustos incógnitos perguntam:
– Já será dia?
Manchas de luz abrem buracos nas copas altas

Árvores-comadres
passaram a noite tecendo folhas em segredo
Vento-ventinho assoprou de fazer cócegas nos ramos
Desmanchou escrituras indecifradas

VII
Ai! Tenho pressa. Vou andando
Furo tabocas
– Onde estou?

Árvores de galhos idiotas me espiam
Águas defuntas estão esperando a hora de apodrecer

Escorrego por um labirinto
com árvores prenhas sentadas no escuro
Raízes com fome mordem o chão

Carobas sujas levantam os vestidos
como cachos de lama pingando

Açaís pernaltas
movem as folhas lentas no ar pesado
como pernas de aranha espetadas num caule

Miritis abrem os grandes leques vagarosos

Sapo sozinho chama chuva

No fundo
uma lâmina rápida risca o mato
Trovãozinho roncou: já vou

Vem de longe
um trovão de voz grossa resmungando
Abre um pedaço do céu
Desabam paredões estrondando no escuro
Arvorezinhas sonham tempestades

A sombra vai comendo devagarzinho os horizontes inchados

VIII
Desaba a chuva
lavando a vegetação

Vento saqueia as árvores folhudas
de braços para o ar
Sacode o mato grande

Nuvens negras se amontoam
Monstros acocorados
tapam os horizontes beiçudos

Palmeiras aparam o céu

Alarmam-se as tiriricas
Saracurinhas piam piam piam
Guariba lá adiante puxa reza

As lagoas arrebentaram
Água rasteira agarra-se nos troncos
Rolam galhos secos pelo chão

O charco embarriga
com o vem-vem de plantinhas miúdas da enxurrada

Árvores encalhadas pedem socorro
Mata-paus vou-bem-de-saúde se abraçam

O céu tapa o rosto

Chove... Chove... Chove...

IX
Ai que estou perdido
num fundo de mato espantado mal-acabado

Me atolei num útero de lama
O ar perdeu o fôlego

Um cheiro choco se esparrama
Mexilhões estão de festa no atoleiro

Atrás de troncos encalhados
ouço guinchos de um guaxinim

Parece que vem alguém nesse escurão sem saída

– Olelé. Quem vem lá?
– Eu sou o Tatu-de-bunda-seca

– Ah compadre Tatu
que bom você vir aqui
Quero que você me ensine a sair desta goela podre

– Então se segure no meu rabo
que eu lê puxo

X
Agora
quero um rio emprestado pra tomar banho
Quero dormir três dias e três noites
com o sono do Acutipuru

– Você me espere
que depois vou lê contar uma história

XI
Acordo
A lua nasceu com olheiras
O silêncio dói dentro do mato

Abriram-se as estrelas
As águas grandes se encolheram com sono

A noite cansada parou

Ai compadre!
Tenho vontade de ouvir uma música mole
que se estire por dentro do sangue;
música com gosto de lua
e do corpo da filha da rainha Luzia

que me faça ouvir de novo
a conversa dos rios
que trazem queixas do caminho
e vozes que vem de longe
surradas de ai ai ai

Atravessei o Treme-treme

Passei na casa do Minhocão
Deixei minha sombra para o Bicho-do-Fundo
só por causa da filha da rainha Luzia

Levei puçanga de cheiro
e casca de tinhorão
fanfan com folhas de trevo
e raiz de mucura-caã

Mas nada deu certo...

Ando com uma jurumenha
que faz um dóizinho na gente
e mexe com o sangue devagarinho

Ai compadre
Não faça barulho
que a filha da
rainha Luzia
talvez ainda esteja dormindo

Ainda onde andará
que eu quero somente
ver os seus olhos molhados de verde
seu corpo alongado de canarana

Talvez ande longe...
E eu virei vira-mundo
para ter um querzinho
de apertar o corpo de pele de flor
da filha da
rainha Luzia

Ai não faça barulho...

XII
A madrugada vem se mexendo atrás do mato

Clareia
Os céus se espreguiçam

Arregaçam-se os horizontes

No alto de um cumandá
está cantando a Maria-é-dia

Acordam-se raízes com sono

Riozinho vai pra escola
Está estudando geografia

Árvores acocoradas
lavam galhos despenteados na correnteza

Gaivotas medem o céu

Horizontes riscados de verdes me chamam

– Compadre
vamos pro lago   Onça-poiema
Temos que pegar distância
antes de chegar a maré baixa

Este rio é a nossa rua
Ai o capim pirixi
Rema  Rema deste lado
Quero ficar espichado
sobre o capim pirixi
Eu vou convidar a noite
para ficar por aqui

XIII
Solzinho infantil
cresceu engordurado e alegre

Arvorezinhas impacientes
mamam luz escorrendo das folhas

– Tire a mãe daí   Não me empurre!

Ventres de floresta gritam:
– Enche-me

Rios escondidos sem filiação certa
vão de muda nadando nadando
Entram resmugando mato adentro

Nacos de terra caída
vão fixar residência mais adiante
numa geografia em construção

Mamoranas da beira do rio sonham viagens
Derretem-se na correnteza
cidades elásticas em trânsito

O sol tinge a paisagem
Lá adiante
nadam árvores de beiços caído
movendo os longos galhos contrariados

XIV
Meio dia
de um céu demorado

Quebra-se na mata
o grito de um arapapá

Coagulam-se estirões visguentos
estendidos ao sol para secar
Enruga-se o charco
como um ovário cansado

Um socó-boi sozinho
bebe silêncio

Longe
atrás de um fio de mato esmagado
estiram-se horizontes

O sol belisca a pele azul do lago

À beira das canaranas
dormem sáurios encouraçados

– Vou refrescar o corpo com um mergulho
Se eu demorar muito você me chame

A água tem a molura macia de perna de moça, compadre!

XV
Céu muito azul
Garcinha branca voou voou...
Pensou que o lago era lá em cima

Pesa um mormaço   Dói a luz nos olhos
Sol parece um espelhinho

Vozes se dissolvem

Passarão sozinho risca a paisagem bojuda

XVI
– Mar fica longe, compadre?
– Fica
São dez léguas de mato e mais dez léguas
– Então vamos

Está começando a escurecer
A tarde esticou a asa vermelha

Toiceiras de capim membeca
escrevem sombras longas nas areias usadas

Uma inhambu se assusta

Ecoa no fundo sem resposta
o grito cansado de um pixi-pixi

Encolhe-se à luz do dia
devagarzinho

– Vou ficar com os olhos entupidos de escuro
– Adeus marreca toicinho!
– Adeus garça morena da lagoa!

Apagam-se as cores   Horizontes se afundam
num naufrágio lento

A noite encalhou com um carregamento de estrelas

XVII
A floresta vem caminhando
– Abra-se que eu quero entrar!

Movem-se raízes com pernas atoladas

Águas de barriga cheia
espreguiçam-se nos igapós

O charco desdentado rumina lama

Uei! Aqui vai passando um riozinho
de águas órfãs fugindo
– Ai glu-glu-glu
Não-diz-nada pra ninguém
Se o sol aparecer ele me engole

– Então mande chamar a chuva compadre

Há gritos e ecos que se escondem
aflições de falta de ar
Árvores corcundas com fome mastigando estalando
entre roncos de ventres desatufados

Chô compadre
Eu também já estou com fome
– Então deixe eu assoprar na barriga

Esta lagoa está com febre   Inchou   A água parou

XVIII
Vou me estirar neste paturá
para ouvir barulhos de beira de mato
e sentir a noite toda habitada de estrelas

Quem sabe se uma delas
com seus fios de prata
viu o rasto luminoso da filha da rainha Luzia?

Dissolvem-se rumores distantes
num fundo de floresta anônima

Sinto bater em cadência
a pulsação da terra

Silêncios imensos se respondem...

XIX
Mar desarrumado
de horizontes elásticos
passou toda a noite com insônia
monologando e resmungando

Chegam ondas cansadas da viagem
descarregando montanhas

Fatias do mar dissolvem-se na areia
Parece que o espaço não tem fundo...

– De onde é que vem tanta água, compadre?

XX
Começa hoje a maré grande

O mar está se aprontando
para receber as águas vivas
de contrato com a lua

– Vamos rumar pras bandas do Bailique
para ver chegar a pororoca

O mangue pediu terra emprestada
pra construir aterros gosmentos

Brigam raízes famintas

A água engomada de lama
resvala devagarinho na vasa mole

Abrem-se pântanos de aninga
nas clareiras alagadas
Raízes descalças afundam-se nos charcos

Moitas garranchentas amarram o caminho
– Pressa, compadre
Temos que chegar antes da lua

Esta costa baixa pegou verão
O rio se encolheu   A água se retirou
O vento rói as margens de beiços rachados

O mangue de cara feia
vem de longe caminhando com a gente

XXI
Noite pontual
Lua cheia apontou, pororoca roncou

Vem que vem vindo como uma onda inchada
rolando e embolando
com a água aos tombos

Vagalhões avançam pelas margens espantadas

Um pedaço de mar mudou de lugar

Somem-se ilhas menores
debaixo da onda bojuda
arrasando a vegetação

Fica para trás o mangue
aparando o céu com braços levantados

Florestinhas se somem
A água comovida abraça-se com o mato

Estalam árvores quebradas de tripa de fora

Pororoca traz de volta a terra emigrante que fugiu de casa
levada pela correnteza

XXII
Paisagem encharcada
O luar espesso amansa as águas
Árvores parecem pássaros inchados

Voltam lentamente rio acima
comboios de matupás pra construção de novas ilhas
numa engenharia silenciosa

O rabo dágua se some
Vai descansar debaixo da lua
na ponta da Seriaca

– Vamos aproveitar a força da enchente
– Pois se agarre neste pau de balsa

Maré cheia   Maré baixa
Onda que vai   Onda que vem
Coração na beira dágua
tem maré baixa também

– Aquela polpa de mato está me puxando os olhos
– Então navegue pra lá, compadre

XXIII
Noite grande...

Apicum da beira dágua está gostoso

Hoje tem céu que não acaba mais
esticado até aquele fundo

Bom se eu pudesse empurrar horizontes
ver terras com florestas decotadas
numa noite enfeitada de lua
com cachos de estrelas

– Estou de mussangulá

Dentro do mato de árvores niqueladas
silêncio fez tincuã

Grilos dão aviso
Respondem lá adiante

Sapos com dor-de-garganta estudam em voz alta
Céu parece uma geometria em ponto grande

– Há tanta coisa que a gente não entende, compadre

– O que é que haverá lá atrás das estrelas?

XXIV
– Compadre, eu já estou com fome
Vamos lá pro putirum roubar farinha?

– Putirum fica longe?
– Pouquinho só chega lá
Cunhado Jabuti sabe o caminho
– Então vamos

Vamos lá pro putirum
Putirum Putirum
Vamos lá roubar tapioca
Putirum Putirum

Casão das farinhas grandes

Mulheres trabalham nos ralos
mastigando cachimbos

Chia a cachoeira nos tachos
mandioca-puba pelos tipitis

– Joaninha Vintém conte um causo
– Causo de quê?
– Qualquer um
– Vou contar causo do Boto
Putirum Putirum

Amor chovia
Chuveriscou

Tava lavando roupa maninha
quando Boto me pegou

– Ó Joaninha Vintém
Boto era feio ou não?
– Ai era um moço loiro, maninha
tocador de violão

Me pegou pela cintura...
– Depois o que aconteceu?

– Gente!
Olhe a tapioca embolando nos tachos

– Mas que Boto safado!
Putirum Putirum

XXV
A festa parece animada, compadre
– Vamos virar gente pra entrar?
– Então vamos

– Boa-noite
– Bua-nuite

– Aí não me conhecem, não
Perguntarão:
– Quem será?

– Se for de bem pode entrar
– Então peço licença
para quebrar um verso pra dona da casa:

Angelim folha miúda
que foi que te entristeceu?
Tarumã

Foi o vento que não trouxe
notícias de quem se foi
Tarumã

Flor de titi murchou logo
nas margens do igarapé
Tarumã

Na areia não deixou nome
O rato o vento levou
Tarumã

– Puxe mais um “chorado” na viola, compadre
– Mano, espermente um golinho de cachaça ardosa
pra tomar sustança
– Então abram roda:

Tajá da folha comprida
não pia perto de mim
Tajá

Quando anoitece na serra
tenho medo que ela se vá
Tajá

Já tem noite nos seus olhos
de não-te-lembras-mais-de-mim
Tajá

Ai serra do Adeus-Maria
não leva o meu bem pra lá
Tajá

Tajá que traz mau agoiro
não pia perto de mim
Tajá

– Mexa com o corpo velho
Trance pernas com a moça, compadre

– Balancê. Traversê
– Com sus pares contraro
– Vorver pela dereita
– Mudar de posição

Vou tomar tacacá quente
Tico-tico já voltou
Foi no mato cortar lenha
Urumutum Urumutum

Pica-pau bate que bate
já bateu meu coração
Bateu bico toda a noite
Urumutum Urumutum

– Esse decumê ta ficando bom
– Passe a cuité com farinha pra gente
Pimenta pegou fogo na boca
– Então desentupa a goela com tiquira
Urumutum Urumutum

– Olha, compadre
Aquela moça está toda dobradinha por você

– Já está na hora de ir embora
Esquente o corpo com uma xiribita
que ainda temos que pegar muito chão-longe

– Vamos!
– Compadre,
escuite uma coisa aqui no ouvido:
Joaninha Vintém quer vim junto

– Nada disso. É muito tarde.
Traga umas ervas de surra-cachorro
e vamos pegar o corpo que ficou lá fora

XXVI
Noite está bonita
Parece envidraçada
Dormem sororoquinhas na beira do rio
Árvores nuas tomam banho

Jacarés em férias
Mastigam estrelas que se derretem dentro dágua

Entre toiceiras de macegas
passa uma suçuarana com sapatos de seda

Ventinho penteia as folhas de embaúba

A paisagem se desfia num pano de fundo

Cunhado Jaboti torceu caminho
– Dê lembranças à dona Jabota

Enquanto é noite
com todo esse céu espaçoso e tanta estrela
vamos andando machucando estradas mais pra diante

XXVII
Mais adiante uma pagelança

No escuro a um canto dum rancho
Pajé assobia comprido fiu... fiu
chamando o mato.

– Mato! Quero minha onça caruana Maracá te chama

Onça chegou Saltou Entrou no corpo do Pajé
– Quero tafiá Quero fumar Quero dança de arremedar

Não gosto de fogo

Mestre Paricá chama os doentes
de sezão de inchaço do ventre espinhela caída.

– Só quem sabe curar isso é a Mãe do Lago
– Quem entende de inchaço é o Urubu-tinga

Pajé faz uma benzedura de destorcer quebranto

E depois fuma e defuma
Fumaça de mucurana
gervão com cipó-titica
e favas de cumaru

Em seguida pega uma figa de Angola
Risca uma cruz no chão
e varre o feitiço do corpo com penas de ema
O último caruana pede tafiá dança de arremedar
– E quero mais diamba

– Compadre, vamos também experimentar uma fumadinha?
Pajé tonteou  Se acocorou  Foi-se sumindo
assobiando baixinho fiu... fiu... fiu...

Então
contrata o mato pra fazer mágica

XXVIII
A floresta se avoluma

Movem-se espantalhos monstros
riscando sombras estranhas pelo chão

Árvores encapuçadas soltam fantasmas
com visagens do lá-se-vai

O luar amacia o mato sonolento

Lá adiante
o silêncio vai marchando com uma banda de música

Floresta ventríloqua brinca de cidade

Movem-se arbustos cúbicos
sob arcadas de samaúma

Palmeiras aneladas se abanam

Jaburus de monóculo namoram estrelas míopes
João Cutuca belisca as árvores

Passa lá embaixo a escolta do Rei-de-Copas
Curvam-se as canaranas

Chegam de longe ruídos anônimos

– Quem é que vem?
– Vem vindo um trem:
Maria-fumaça passa passa passa

O mato se acorda

Cipós fazem intrigas no alto dos galhos
Desatam-se em gargalhadinhas

Uma árvore telegrafou para outra:
psi psi psi

Desembarcam vozes de contrabando

Sapos soletram as leis da floresta

Lá em cima
um curió toca flauta

Estira-se o rio

O mato é um acompanhamento

Desfiam-se as distâncias
entre manchas de neblina

― Lá vai indo um navio, compadre!

Jaquirana-boia apita
Uma árvore abana adeus do alto de um galho

XXIX
– Escuta, compadre
O que se vê não é navio  É a Cobra Grande

– Mas o casco de prata? As velas embojadas de vento?

Aquilo é a Cobra Grande
Quando começa a lua-cheia ela aparece
Vem buscar moça que ainda não conheceu homem

A visagem vai se sumindo
pras bandas de Macapá

Neste silêncio de águas assustadas
parece que ainda ouço um soluço quebrando-se na noite

– Coitadinha da moça
Como será o nome dela?
Se eu pudesse ia assistir o casamento

– Casamento de Cobra Grande chama desgraça compadre

Só se a gente arranjar mandinga de defunto

Ué! Então vamos
Lobisomem está de festa no cemitério

XXX
– Abre-te vento
que eu te dou um vintém queimado
Preciso passar depressa
antes que a lua se afunde no mato

– Então passa, meu neto

Pereré Pereré Pereré
Quero chegar na Serra Longe

– Pajé-pato meu avô
arreda o mato para um lado
que eu preciso passar

Levo um anel e um pente-de-ouro
pra noiva da Cobra Grande

– Que mais que tu levas?
– Levo cachaça
– Então deixa um pouco   Pode passar

Canta um pitiro-pitiro no fundo do mato
Silêncio não respondeu

Matim-tá-pereira vem chegando
– Bom cê deixar um naco de fumo pro Curupira, compadre

Tamos chegando na ponta do Escorrega

Aracuã fica de guarda
As moças vão tomar banho no escondido

Pressa que pena, compadre
Senão a gente ia espiar cheiroso
– Força pra frente que já é tarde

– Devagar
que chão duro dói chô chô

– Só temos um palmo de lua lá em cima

– Devagar
que chão duro dói chô chô

– Se a bruxa do olho comprido acorda
Espalha malefício

– Devagar
que chão duro dói chô chô

– Pressa, compadre
Já avistei Serra do Vento
do lado de lá do luar

Terras da Cobra Grande
começam atrás do pantanal

– Ai compadre
quero três fôlegos de descanso
que o ar entupiu

Então esperazinho um pouco
Vou buscar puçanga
pra distorcer o mau olhado

Ouço miando no mato a alma de gato
Tincuã quando pia é mau agoiro...

XXXI
Esta é a entrada da casa da Boiúna

Lá embaixo há um tremedal
Cururu está de sentinela

Desço pelos fundões da grota
num escuro de se esconder

O chão oco ressoa
Silêncio não pode sair

Há fossas de boca inchada
– Por onde será que isto sai?
– Sai na goela da Panela

Ai o medo já me comicha a barriga

Lá adiante
num estirão mal-assombrado
vai passando uma canoa carregada de esqueletos

Neste Buraco do Espia
pode-se ver a noiva da Cobra Grande

Compadre! Tremi de susto
Parou a respiração

Sabe quem é a moça que está lá embaixo
...nuinha como uma flor?
– É a filha da rainha Luzia!

– Então corra com ela depressa
Não perca tempo, compadre
Cobra Grande se acordou

– Sapo-boi faça barulho
– Ai   Quatro Ventos me ajudem
Quero forças pra fugir
Cobra Grande vem-que-vem-vindo pra me pegar

Já-te-pego  Já-te-pego

– Serra do Ronca role abaixo
– Tape o caminho atrás de mim

Erga três taipas de espinho
fumaças de ouricuri
– Atire cinzas pra trás
para agarrar distância

Já-te-pego  Já-te-pego

Tamaquaré, meu cunhado,
Cobra Grande vem-que-vem
Corra imitando o meu rasto
Faz de conta que sou eu
Entregue o meu pixé na casa do Pajé-pato

Torça caminho depressa
que a Boiúna vem lá atrás
como uma trovoada de pedra

Vem amassando mato

Uei!
Passou rasgando o caminho

Arvorezinhas ficaram de pescoço torcido
As outras rolaram esmagadas de raiz para cima

O horizonte ficou chato

Vento correu correu
mordendo a ponta do rabo

Pajé-pato lá adiante ensinou caminho errado:

– Cobra Norato com uma moça?
Foi pra Belém   Foi se casar

Cobra Grande esturrou direito pra Belém

Deu um estremeção

Entrou no cano da Sé
e ficou com a cabeça enfiada debaixo dos pés de Nossa Senhora


XXXII
– E agora, compadre
vou de volta pro Sem-fim

Vou lá para as terras altas
onde a serra se amontoa
onde correm os rios de águas claras
em matos de molungu

Quero levar minha noiva
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor

Quero sentir a quentura
do seu corpo de vai-e-vem
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem bem

Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar

E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
eu hei de le contar histórias
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar

XXXIII
Pois é, compadre
Siga agora o seu caminho

Procure minha madrinha Maleita
diga que eu vou me casar
que eu vou vestir minha noiva
com um vestidinho de flor

Quero uma rede bordada
com ervas de espalhar cheiroso
e um tapetinho titinho
de pernas de irapuru

No caminho
vá convidando gente pro Caxiri grande

Haverá muita festa
durante sete luas sete sóis

Traga a Joaninha Vintém o Pajé-pato Boi-Queixume
Não se esqueça dos Xicos Maria-Pitanga o João Ternura

O Augusto Meyer Tarsila Tatizinha
Quero povo de Belém de Porto Alegre de São Paulo

– Pois então até breve, compadre
Fico le esperando
atrás das serras do Sem-fim
.

14 de setembro de 2015

Não fosse a Luta, Companheiro...

Não fosse a Luta já
motivo o bastante
para que eu te acompanhasse...

Não fosse o Sonho
vivo o suficiente
para insistirem nossos passos
quando exaustos...

Não fosse o Povo
uma multidão onde,
rosto a rosto, nos reconhecemos
sedentos de Justiça...

Não fosse este pulsar
mais que a impressão ligeira
de paixões entontecidas,
feitas de procura e pó...

Não fosse a Vida
auto-explicativa no tudo
vivido e suado
de nossas cotidianas utopias...

Não fosse, então, a Utopia
justa medida
para fazer-nos grandes
ante nós mesmos e o Mundo...

Não fosse o Mundo
este convite infinito
à descoberta, à mudança,
ao Movimento incessante...

Não fosse a grandeza
segura e humilde
para permitir-nos a meninice
da teimosia e da emoção...

Não fosse a teimosia
de sermos e estarmos
em marcha,
na História...

Não fosse a História
algo a ser mudado,
colorido com as cores
de nossas bandeiras...

Não fossem meninas as nossas mãos
a agitar tantas bandeiras
e a inspirar-nos o riso,
e a apontar-nos o que é preciso,
e o que é urgente...

Não fosse incontornável
o desejo de fazer mais gente,
cada homem e cada mulher,
em cada canto e chão...

Não fosse o nosso chão
adorada morada,
não fosse o caminho em si
razão de seguir...

Não fosse...
Ah, não fosse o riso, meu e teu,
alívio e alento na Luta
e a Justiça, companheiro,
ideia e ideal
que nos move e comove...

Não fosse isto tudo já
motivo o suficiente,
para perder e encontrar a Vida,
para aprender e construir os sonhos...

Ainda assim, eu te sonharia!
Justo, como nossas causas;
forte, qual a convocação da Utopia;
íntegro, como a Manhã
que (ainda) será,
mas já nos irradia!
.

8 de julho de 2015

Quem me dera
um mapa de tesouro
que me leve a um velho baú
cheio de mapas do tesouro

7 de julho de 2015

o tempo
entre o sopro
e o apagar da vela

6 de julho de 2015

Amando,
aumenta
até duas mil vezes
o tamanho.

12 de abril de 2015

Entrar na Academia já entrei
mas ninguém me explica por que essa torneira
aberta
neste silêncio de noite
parece poesia jorrando…
Sou bugre mesmo
me explica mesmo
me ensina modos de gente
me ensina a acompanhar um enterro de cabeça baixa
me explica por que um olhar de piedade
cravado na condição humana
não brilha mais que anúncio luminoso?
Qual, sou bugre mesmo
só sei pensar na hora ruim
na hora do azar que espanta até a ave da saudade
Sou bugre mesmo
me explica mesmo
se eu não sei parar o sangue, que que adianta
não ser imbecil ou borboleta?
Me explica por que penso naqueles moleques
como nos peixes
que deixava escapar do anzol
com queixo arrebentado?
Qual, antes melhor fechar esta torneira, bugre velho…
.

1 de abril de 2015

Adminimistério

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.

Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?
.

26 de março de 2015

Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
.

23 de março de 2015

Somos retas paralelas.
Amor possível de se
encontrar no infinito.
.

22 de março de 2015

Último aviso

caso alguma coisa me acontecer,
informem a família,
foi assim, assim tinha que ser

tinha que ser dor e dor
esse processo de crescer

tinha que vir dobrado
esse medo de não ser

tinha que ser mistério
esse meu modo de desaparecer

um poema, por exemplo,
caso alguma coisa me suceder,
vá que seja um indício

quem sabe ainda não acabei de escrever
.

21 de março de 2015

O Guardador de Rebanhos – X

Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da  estrada,
Que te diz o vento que passa?

Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois,
E a ti o que te diz?

Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.

Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.
.

20 de março de 2015

O Guardador de Rebanhos – IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
.

19 de março de 2015

vento nenhum
parou para ouvir
o silêncio da noite
.

18 de março de 2015

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
.

14 de março de 2015

aceita
o vôo é o leito
da borboleta
.

13 de março de 2015

Pedagogia

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição.
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!
.

12 de março de 2015

a noite esporeia
suas negras ancas
cravando-se estrelas
.

11 de março de 2015

O coração da aranha
se desfaz em geometria
de seda e mandala.
.

10 de março de 2015

O pleno e o vazio

Oh se me lembro e quanto.
E se não me lembrasse?
Outra seria minh'alma,
bem diversa minha face.

Oh como esqueço e quanto.
E se não me esquecesse?
Seria homem-espanto,
ambulando sem cabeça.

Oh como esqueço e lembro,
como lembro e esqueço
em correntezas iguais
e simultâneos enlaces.
Mas como posso, no fim,
recompor os meus disfarces?

Que caixa esquisita guarda
em mim sua névoa e cinza,
seu patrimônio de chamas,
enquanto a vida confere
seu limite, a cada hora
é uma hora devida
no balanço da memória
que chora e que ri, partida?
.

9 de março de 2015

na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua
.

3 de março de 2015

Aspiração

Tão imperfeitas, nossas maneiras
de amar.
Quando alcançaremos
o limite, o ápice
de perfeição,
que é nunca mais morrer,
nunca mais viver
duas vidas em uma,
e só o amor governe
todo além, todo fora de nós mesmos?

O absoluto amor,
revel à condição de carne e alma.
.

21 de fevereiro de 2015

são não

      não são
são não
      rogai por nós
para que não
      sejamos senão
.

20 de fevereiro de 2015

Os Filhos da Paixão

Carregamos no peito, cada um, batalhas incontáveis.
Somos a perigosa memória das lutas
Projetamos a perigosa imagem do sonho
Nada causa mais horror à ordem
do que homens e mulheres que sonham.
Nós sonhamos. E organizamos o sonho.
Nascemos negros, nordestinos, nisseis, índios,
mulheres, mulatas, meninas de todas as cores,
filhos, netos de italianos, alemães, árabes, judeus,
portugueses, espanhóis, poloneses, tantos...
Nascemos assim desiguais, como todos os sonhos humanos.
Fomos batizados na pia, na água dos rios, nos terreiros
Fomos, ao nascer, condenados
a amar a diferença.
A amar os diferentes.
Viemos da margem.
Somos a anti-sinfonia
que estorna da estreita pautada melodia.
Não cabemos dentro da moldura...
Somos dilacerados como todos os filhos da paixão.
Briguentos. Desaforados. Unidos. Livres:
como meninos de rua.
Quando o inimigo não fustiga
inventamos nossas próprias guerras.
Desenvolvemos um talento prodigioso para elas.
Com nossas mãos, sonhos, desavenças,
compomos um rosto de peão,
uma voz rouca de peão,
o desassombro dos peões
para oferecer aos país,
para disputar o país!
Por sua boca dissemos na fábrica, nas praças, nos estádios
que este país não tem mais donos.
Em 84 viramos multidão, inundamos as ruas,
somamos nosso grito ao grito de todos,
depois gritamos sozinhos
e choramos a derrota sob nossas bandeiras.
Como aprender a governar,
a desenhar em cada passo, em cada gesto,
a cada dia a vida nova que nossa boca anunciou?
Encarnamos a tempestade.
Assombrados pela vertigem dos ventos que desatamos.
Venceu a solidez da mentira, do preconceito.
Três anos depois, pintamos a cara como tantos
e fomos pra rua com nossos filhos
inventar o arco-íris e a indignação.
Desta vez a fortaleza ruiu diante dos nossos olhos.
E só havia ratos depois dos muros.
A fortaleza agora está vazia
ou povoada de fantasmas.
O caminho que conduz a ela passa por muitos lugares.
Caravanas: pelas estradas empoeiradas,
pela esperança empoeirada do povo,
pelos mandacarus e juazeiros,
pelos seringais, pelas águas da Amazônia,
pelos parreirais e pelos pampas, pelos cerrados e pelos babaçuais,
mas sobretudo pela invencível alegria
que o rosto castigado da gente demonstra à sua passagem.
A revolução que acalentamos na juventude faltou.
A vida não. A vida não falta.
E não há nada mais revolucionário que a vida.
Fixa suas próprias regras.
Marca a hora e se põe de nós, incontornável.
Os filhos da margem têm os olhos postos sobre nós.
Eles sabem, nós sabemos que a vida não nos concederá outra oportunidade.
Hoje, temos uma cara. Uma voz. Bandeiras.
Temos sonhos organizados.
Queremos um país onde não se matem crianças
que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro.
Onde os filhos da margem tenham direito à terra,
ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,
às histórias que povoam nossa imaginação,
às raízes da nossa alegria.
Aprendemos que a construção do Brasil
não será obra apenas de nossas mãos.
Nosso retrato futuro resultará
da desencontrada multiplicação
dos sonhos que desatamos.
.

19 de fevereiro de 2015

A montanha pulverizada

Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.

Era coisa dos índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é a sua vista a contemplá-la.

De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.

Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões
no trem-monstro de 5 locomotivas
– trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.
.

18 de fevereiro de 2015

Amor vazio

Sua ânsia me assustava. Era um querer aflito, uma fome, com olhos firmes e insistentes de monstro desperto depois de um comprido hibernar.
Mas a voz... a voz descortinava outra criatura – talvez a paz que ele procurava tão desesperadamente do lado de fora. Ela estava lá, como os óculos no nariz do esquecido. Verdade era que sua presença não fosse lá tão fácil de descobrir. Era preciso um pouco de sol para denunciá-la. E eu a entrevi naquela voz.
O medo, receio ou timidez foi passando. O que estou fazendo?, me perguntava. Não me importava a resposta. Pisava cada vez menos cuidadosamente aquela ilha que resolvi visitar. Encontrei a lama densa de um mangue com suas sombras e também um campo aberto. Lá fiquei. Talvez construa um abrigo. Talvez o vento o leve.

Tal vez
Leve
.

17 de fevereiro de 2015

Copo d'água no sereno

O copo no peitoril
convoca os eflúvios da noite.

Vem o frio nevoso
da serra.
Vêm os perfumes brandos
do mato dormindo.
Vem o gosto delicado
da brisa.

E pousam na água.
.

16 de fevereiro de 2015

TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO Parte I – A Disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica:
1 – Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.
2 – Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 – Percepção de contiguidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 – Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 – Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 – Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 – Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância aos passarinhos do que aos senadores.
.

15 de fevereiro de 2015

ABC do Nordeste Brasileiro

A – Ai, como é duro viver 
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.

B – Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.

C – Caminhando pelo espaço,
como os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando... sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.

D – De manhã, bem de manhã,
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder,
pra de fome não morrer,
vai atrás de outro lugar,
e ali só há de voltar,
um dia, quando chover.

E – Em tudo se vê mudança
quem repara vê até
que o camaleão que é
verde da cor da esperança,
com o flagelo que avança,
muda logo de feição.
O verde camaleão
perde a sua cor bonita
fica de forma esquisita
que causa admiração.

F – Foge o prazer da floresta
o bonito sabiá,
quando flagelo não há
cantando se manifesta.
Durante o inverno faz festa
gorjeando por esporte,
mas não chovendo é sem sorte,
fica sem graça e calado
o cantor mais afamado
dos passarinhos do norte.

G – Geme de dor, se aquebranta
e dali desaparece,
o sabiá só parece
que com a seca se encanta.
Se outro pássaro canta,
o coitado não responde;
ele vai não sei pra onde,
pois quando o inverno não vem
com o desgosto que tem
o pobrezinho se esconde.

H – Horroroso, feio e mau
de lá de dentro das grotas,
manda suas feias notas
o tristonho bacurau.
Canta o João corta-pau
o seu poema funério,
é muito triste o mistério
de uma seca no sertão;
a gente tem impressão
que o mundo é um cemitério.

I – Ilusão, prazer, amor,
a gente sente fugir,
tudo parece carpir
tristeza, saudade e dor.
Nas horas de mais calor,
se escuta pra todo lado
o toque desafinado
da gaita da seriema
acompanhando o cinema
no Nordeste flagelado.

J – Já falei sobre a desgraça
dos animais do Nordeste;
com a seca vem a peste
e a vida fica sem graça.
Quanto mais dia se passa
mais a dor se multiplica;
a mata que já foi rica,
de tristeza geme e chora.
Preciso dizer agora
o povo como é que fica.

L – Lamento desconsolado
o coitado camponês
porque tanto esforço fez,
mas não lucrou seu roçado.
Num banco velho, sentado,
olhando o filho inocente
e a mulher bem paciente,
cozinha lá no fogão
o derradeiro feijão
que ele guardou pra semente.

M – Minha boa companheira,
diz ele, vamos embora,
e depressa, sem demora
vende a sua cartucheira.
Vende a faca, a roçadeira,
machado, foice e facão;
vende a pobre habitação,
galinha, cabra e suíno
e viajam sem destino
em cima de um caminhão.

N – Naquele duro transporte
sai aquela pobre gente,
agüentando paciente
o rigor da triste sorte.
Levando a saudade forte
de seu povo e seu lugar,
sem um nem outro falar,
vão pensando em sua vida,
deixando a terra querida,
para nunca mais voltar.

O – Outro tem opinião
de deixar mãe, deixar pai,
porém para o Sul não vai,
procura outra direção.
Vai bater no Maranhão
onde nunca falta inverno;
outro com grande consterno
deixa o casebre e a mobília
e leva a sua família
pra construção do governo.

P – Porém lá na construção,
o seu viver é grosseiro
trabalhando o dia inteiro
de picareta na mão.
Pra sua manutenção
chegando dia marcado
em vez do seu ordenado
dentro da repartição,
recebe triste ração,
farinha e feijão furado.

Q – Quem quer ver o sofrimento,
quando há seca no sertão,
procura uma construção
e entra no fornecimento.
Pois, dentro dele o alimento
que o pobre tem a comer,
a barriga pode encher,
porém falta a substância,
e com esta circunstância,
começa o povo a morrer.

R – Raquítica, pálida e doente
fica a pobre criatura
e a boca da sepultura
vai engolindo o inocente.
Meu Jesus! Meu Pai Clemente,
que da humanidade é dono,
desça de seu alto trono,
da sua corte celeste
e venha ver seu Nordeste
como ele está no abandono.

S – Sofre o casado e o solteiro
sofre o velho, sofre o moço,
não tem janta, nem almoço,
não tem roupa nem dinheiro.
Também sofre o fazendeiro
que de rico perde o nome,
o desgosto lhe consome,
vendo o urubu esfomeado,
puxando a pele do gado
que morreu de sede e fome.

T – Tudo sofre e não resiste
este fardo tão pesado,
no Nordeste flagelado
em tudo a tristeza existe.
Mas a tristeza mais triste
que faz tudo entristecer,
é a mãe chorosa, a gemer,
lágrimas dos olhos correndo,
vendo seu filho dizendo:
mamãe, eu quero morrer!

U – Um é ver, outro é contar
quem for reparar de perto
aquele mundo deserto,
dá vontade de chorar.
Ali só fica a teimar
o juazeiro copado,
o resto é tudo pelado
da chapada ao tabuleiro
onde o famoso vaqueiro
cantava tangendo o gado.

V – Vivendo em grande maltrato,
a abelha zumbindo voa,
sem direção, sempre à toa,
por causa do desacato.
À procura de um regato,
de um jardim ou de um pomar
sem um momento parar,
vagando constantemente,
sem encontrar, a inocente,
uma flor para pousar.

X – Xexéu, pássaro que mora
na grande árvore copada,
vendo a floresta arrasada,
bate as asas, vai embora.
Somente o saguim demora,
pulando a fazer careta;
na mata tingida e preta,
tudo é aflição e pranto;
só por milagre de um santo,
se encontra uma borboleta.

Z – Zangado contra o sertão
dardeja o sol inclemente,
cada dia mais ardente
tostando a face do chão.
E, mostrando compaixão
lá do infinito estrelado,
pura, limpa, sem pecado
de noite a lua derrama
um banho de luz no drama
do Nordeste flagelado.

.

14 de fevereiro de 2015

Festa no Amazonas

Tiramento de jóia pro Divino (jóia de ovo, jóia de galinha)
A flotinha fluvial desliza pelo furo afora
Depois entra pelo igarapé

Numa canoa à frente
o tambor-onça acorda as árvores
E xô passarinhodo bico encarnado
N’outra canoa adiante
descombinam-se o adufo e o tamborim num bate-bate
Árvores escutam
Mamoranas se debruçam na corrente

Desenham-se na água lenta
palácios da cidade-capim
O rio cansado
resvala preguiçosamente pelas margens
A água lambe os barrancos

A noite chega devagarzinho
Tincuã grita do alto de um cumandá: Tincuã.

Passa um regatão águas abaixo
Traz ervas mágicas para banhos de cheiro
... E xô passarinho
O mato infantil brinca de acústica
O eco se repete
com uma voz brincando de esconder no fundo do mato
.

13 de fevereiro de 2015

Princípio

No princípio era sol sol sol
O Amazonas ainda não estava pronto
As águas atrasadas
derramavam-se em desordem pelo mato

O rio bebia a floresta

Depois veio a Cobra Grande Amassou a terra elástica
e pediu para chamar sono
As árvores enfastiadas de sol combinaram silêncio
A floresta imensa chocando um ovo

Cobra Grande teve uma filha. Ficou moça
Um dia
ela disse que queria conhecer homem
Mas não encontraram rasto de homem

Então
começaram a adivinhar horizontes
e mandaram buscar de muito longe um moço

Ai! que houve festa na floresta!

Mas a filha da Cobra Grande não queria dormir com o noivo

porque naquele tempo não havia noite
A noite estava escondida atrás da selva
dentro de um caroço de tucunã
Ah! então vamos buscar o tucumã
pra dar de presente de casamento

Veio o Sapo Jabuti veio também
O Cameleão estava esperando sono
A Onça não pôde vir porque tinha emprestado os sapatos

Andaram Andaram

As vozes iam na frente procurando caminho

Desembarcavam árvores Raízes furavam a lama
a floresta crescia

Chô que depois de muito andar chegaram

– Esta é que é a noite?
– Será mesmo a noite?
– Ah! não acredito

Então vamos espiar o que tem dentro

Quando abriram o caroço
houve um estouro imenso
que cobriu tudo de escuro

A floresta inchou
Árvores saíram correndo
Um pedaço da noite entrou na barriga do Sapo.

Então
a filha da Cobra Grande pôde fazer dormezinho com o noivo.
.