30 de maio de 2014

Basta pensar em sentir

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.
.

29 de maio de 2014

Bucólica nostálgica

Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pé de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!
.

28 de maio de 2014

A Meio Pau

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que há durão, mal de chagas te comeu ?
Não, ele disse: é desprezo de amor.
.

27 de maio de 2014

A cicatriz

Estão equivocados os teólogos
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
.

26 de maio de 2014

Poema começado do fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.
.

25 de maio de 2014

Dia

As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
– ia dizer imoral –
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.
.

24 de maio de 2014

O outro Brasil que vem aí

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.
.

23 de maio de 2014

O cego e a guitarra

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
.

22 de maio de 2014

Poema relativo

Vem, ó
bem-amada
Junto à minha casa
Tem um regato (até quieto o regato).

Não tem pássaros que pena!

Mas os coqueiros fazem,
Quando o vento passa,
Um barulho que às vezes parece
Bate-bate de asas.

Supõe, ó bem-amada,
Se o vento não sopra,
Podem vir borboletas
À procura das minhas jarras
Onde há flores debruçadas,
Tão debruçadas que parecem escutar.

Todos os homens têm seus crentes,
Ó bem-amada:
– os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.

Mas tudo é pequeno
E ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
É cada vez mais imenso!

Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
Tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
Pelos caminhos:
– aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfalto

Vem, ó bem-amada,
Porque como te disse
Se não há pássaros no meu parque,
Pode ser, se o vento
Não soprar forte
Que venham borboletas.
Tudo é relativo
E incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
Parecem asas abertas.
.

21 de maio de 2014

Perguntas de um operário que lê

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China, para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou, Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a Guerra dos Sete Anos.
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas.
.

20 de maio de 2014

A voz do canavial

Voz sem saliva da cigarra,
do papel seco que se amassa,

de quando se dobra o jornal:
assim canta o canavial,

ao vento que por suas folhas,
de navalha a navalha, soa,

vento que o dia e a noite toda
o folheiam, e nele se esfola.
.

19 de maio de 2014

Desilusão

Como a folha no vento pelo espaço
Eu sinto o coração aqui no peito,
De ilusão e de sonho já desfeito,
A bater e a pulsar com embaraço.

Se é de dia, vou indo passo a passo
Se é de noite, me estendo sobre o leito,
Para o mal incurável não há jeito,
É sem cura que eu vejo o meu fracasso.

Do parnaso não vejo o belo monte,
Minha estrela brilhante no horizonte
Me negou o seu raio de esperança,

Tudo triste em meu ser se manifesta,
Nesta vida cansada só me resta
As saudades do tempo de criança.
.

18 de maio de 2014

Saudade

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
.

17 de maio de 2014

A terra dos posseiros de Deus

Esta terra é desmedida
e devia ser comum,
Devia ser repartida
um toco pra cada um,
mode morar sossegado.

Eu já tenho imaginado
Que a baixa, o sertão e a serra,
Devia sê coisa nossa;
Quem não trabalha na roça,
Que diabo é que quer com a terra?
.

16 de maio de 2014

Aos poetas clássicos

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidad
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.
.

15 de maio de 2014

O Vento no Canavial

                                       Não se vê no canavial
                                       nenhuma planta com nome,
                                       nenhuma planta Maria,
                                       planta com nome de homem.

                                       É anônimo o canavial,
                                       sem feições como a campina.
                                       É como um mar sem navios,
                                       papel em branco de escrita.

                                       É como um grande lençol
                                       sem dobras e sem bainha,
                                       Penugem de moça ao sol,
                                       roupa lavada estendida.

                                       Contudo há no canavial
                                       oculta fisionomia,
                                       tal no pulso do relógio
                                       há possível melodia,

                                       ou como de um avião
                                       a paisagem se organiza,
                                       ou há finos desenhos nas
                                       pedras da praça vazia.

                                       Se venta no canavial
                                       estendido sob o sol
                                       seu tecido inanimado
                                       faz-se sensível lençol,

                                       se muda em bandeira viva,
                                       de cor verde sobre verde,
                                       com estrelas verdes que
                                       no verde nascem, se perdem.

                                       Não recorda o canavial
                                       então as praças vazias:
                                       não tem, como têm as pedras,
                                       disciplina de milícias.

                                       É solta sua simetria:
                                       como a das ondas na areia
                                       ou as ondas da multidão
                                        lutando na praça cheia.

                                        Então, da praça repleta
                                        é o canavial a imagem:
                                        veem-se as mesmas correntes
                                        que se fazem e desfazem,

                                        voragens que se desatam,
                                        redemoinhos iguais,
                                        estrelas iguais àquelas
                                        que o povo lutando faz.
.

14 de maio de 2014

A arquitetura da cana-de-açúcar

Os alpendres das casas-grandes,
de par em par abertos, anchos,
cordiais como a hora do almoço,
apesar disso não são francos.
O aberto alpendre acolhedor
no casarão sem acolhimento
tira a expressão amiga, amável
do que é de fora e não de dentro:
dos lençóis de cana, tendidos,
postos ao sol até onde a vista,
e que lhe dão o sorriso aberto
que disfarça o que dentro é urtiga.
.

13 de maio de 2014

13 de Maio da Juventude Negra

Treze de Maio não é mais de preto velho
do pai João, da mãe Maria
do negrinho do pastoreiro

Treze de Maio que não é mais
do misticismo, da "simpatia", do "despacho".

Treze de Maio da Juventude Negra
lutando por outra libertação
ao lado da Juventude Branca
contra os senhores capatazes
capitães-do-mato
que permanecem vivos
cometendo os mesmos crimes
as mesmas injustiças
as mesmas desumanidades...
Treze de Maio dos poetas conscientes!
.

12 de maio de 2014

Das cidades

Por debaixo esgotos sobre o solo
Nada e por cima o fumo
Ali vivemos nós sem gozo nem consolo.
Depressa passamos nela. E, devagar, também elas seguem o nosso rumo.
.

11 de maio de 2014

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial ,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
.

10 de maio de 2014

Tarde de Maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.
.

9 de maio de 2014

Ó minha alma, para onde pretendes navegar,
Se não há viajante a seguir, não há roteiro?
Que oceano singrarás, em que cais aportarás,
Se não há mar, não há barco, não há barqueiro?

Se não há lugar, se não há hora, se não há meios,
Como acharás a água capaz de encher tua ânfora?
Sê forte e volta-te para o interior de ti mesma:
Aí encontrarás chão firme, aí deitarás tua âncora.

Kabir diz: Põe toda imaginação de lado,
E permanece impassível naquilo que és.
.

8 de maio de 2014

O rio e suas ondas correm juntos.
Que diferença existe entre eles?

A onda que sobe é água do rio.
A onde que desce é água do rio.

Ao subir e descer como onda.
A água continua a ser rio.

No interior do supremo Brahman,
Os mundos são contas de um rosário.

Ao girar o rosário entre os dedos,
Recita o Nome com sabedoria.
.

7 de maio de 2014

Conta-me, ó cisne, tua história.
De onde vieste? Para onde vais?
Em que margem pousarás para descansar?
A qual meta entregaste o coração?

Esta é a manhã da consciência!
Desperta! Segue-me! Voemos juntos!
Há um lugar livre da dúvida e da tristeza,
Onde o terror da morte não impera.

Lá florescem bosques em eterna primavera,
E sua fragrância nos impulsiona mais e mais.
Imerso nela, o coração, qual abelha, se inebria.
Imenso nela, já não quer outra alegria.
.

6 de maio de 2014

Consumi dias e noites em distrações
E agora sinto um grande medo.
Tão alto está o palácio de meu Senhor
Que hesito diante de tuas escadas.

Mas não posso ficar paralisado,
Se aspiro desfrutar de sua presença.
Meu coração deve ser chama pelo Amado,
Meus olhos devem ser brasas por amor.

Kabir diz: Amigos, escutai-me!
Ele conhece o coração de quem o ama.
Se não queimardes de amor pelo Amado,
De que vos servem as cinzas sobre a testa?
.

5 de maio de 2014

A lua brilha em mim,
Mas meus olhos cegos não podem vê-la.
O tambor da eternidade soa em mim,
Mas meus ouvidos surdos não podem ouvi-lo.
O cervo tem em seu corpo o almíscar,
Mas de bom grado o trocaria por capim.

Enquanto clama pelo "eu" e o "meu",
O trabalho do homem é inútil.
Quando o apego ao "eu" e ao "meu" se esvai,
O trabalho do Senhor acontece.
As flores florescem pelos frutos
E fenecem para que despontem.
.

4 de maio de 2014

Ó asceta,
Como renunciar a Maya?

Renunciei ao lar,
Apeguei-me às roupas.
Renunciei às roupas,
Apeguei-me aos farrapos.

Renunciei às paixões,
Inflamei-me na raiva.
Renunciei à raiva,
Enregelei-me na avidez.

Quando venci a avidez,
Enchi o peito de orgulho –
A mente ainda presa
Na vaidade da renúncia.

Kabir diz: Escutai, meus bons irmãos!
A outra margem raramente é alcançada.
.

3 de maio de 2014

Ó amigo!

Não busques o jardim distante. Fique onde estás.
Pois em ti mesmo há um jardim florido.

Toma teu lugar sobre o lótus das mil pétalas,
E dali contempla a beleza infinita.
.

2 de maio de 2014

Ó amigo!

Busca enquanto vives! Encontra encontra enquanto vives!
Pois é na vida que a liberdade habita.

Se tuas amarras não forem rompidas em vida,
Que esperança de libertação terás na morte?

Não é mais do que um sonho enganoso
Crer que a alma suba a Deus só por deixar o corpo.

Se o alcançares agora, o alcançarás depois.
Se não o alcançares, ficarás retido na cidade dos mortos.

Para encontrá-lo, aqui e além,
Imerge no nome veraz! Entrega-te ao guru verdadeiro!

Kabir diz: É o espírito da busca que liberta.
De tal espírito sou escravo.
.

1 de maio de 2014

Por que me procuras tão longe, amigo,
Se estou sempre contigo?

Não no templo ou na mesquita,
Não no Kailasa ou na Kaaba.

Não no ritual ou na cerimônia,
Não no ioga ou na renúncia.

Busca-me e me encontrarás.
Tua procura só durará um instante.

Kabir diz: Escutai, meu irmão!
Ele é a respiração da respiração.
.